Resumo de investigação

Três injeções intratecais repetidas de células estromais mesenquimatosas alogénicas derivadas do cordão umbilical na perturbação do espetro do autismo: ensaio clínico de fase I

Publicado em
Stem Cell Research & Therapy
Autores do estudo
Elaheh Khodadoust, Hadi Zarafshan, Masoumeh Nouri, Anahita Majmaa, Ali Khaleghi, Fatemeh Zamani, Milad Seyfi, Mohammad Amin Shahrbaf, Solaleh Samimi, Bahareh Sadri, Seyedeh Malihe Mahmoodi, Norouz Abdi, Ali Ghasemi, Mahmoud Reza Ashrafi, Morteza Zarrabi, Massoud Vosough, and Mohammad Reza Mohammadi.
Data do estudo
Doenças
Autismo

Principais pontos e resultados:

Dos estudos publicados no último ano, este é o que mais se aproxima da forma como as células são administradas no nosso protocolo para o autismo. As células derivadas do cordão umbilical foram dadas por via intratecal, mais do que uma vez. Com cinco doentes, é um estudo de segurança e não pode mostrar se o tratamento funciona. O artigo descreve, no entanto, o procedimento e os critérios de elegibilidade com mais pormenor do que a maioria.

Objetivo:

Determinar se três injeções intratecais consecutivas de células estromais mesenquimatosas alogénicas derivadas do cordão umbilical (CEM-CU), com um mês de intervalo, são seguras e exequíveis em crianças pequenas com autismo e, em segundo plano, procurar algum sinal no comportamento, na imagiologia cerebral, no EEG e na inflamação do líquido cefalorraquidiano.

Métodos:

Tratou-se de um ensaio de fase I, aberto e de braço único, realizado no Children’s Medical Center e no hospital psiquiátrico Roozbeh, da Universidade de Ciências Médicas de Teerão, no Irão. Foi registado como IRCT20200217046526N3.

Entre julho de 2022 e janeiro de 2024 foram triadas 96 crianças, e cinco foram incluídas. Tinham entre 58 e 72 meses, quatro das cinco eram rapazes, e todas tinham autismo de nível II segundo o DSM-5 e uma medicação estável. Apenas cinco das 96 crianças triadas eram elegíveis, o que reflete uma lista de exclusões longa e específica:

  • Idade fora dos 36 a 84 meses
  • Uma síndrome genética conhecida associada ao autismo (X frágil, Rett, esclerose tuberosa, neurofibromatose, mutação PTEN)
  • Diagnóstico de paralisia cerebral
  • Epilepsia ativa nos últimos seis meses
  • Qualquer antecedente de infeção ou doença inflamatória do SNC
  • Outros diagnósticos psiquiátricos, imunodeficiência, infeção ativa, doença maligna ou antecedentes de doença alérgica
  • Qualquer transplante prévio de tecido alogénico

Cada criança recebeu uma dose fixa de 20 × 10⁶ CEM-CU de qualidade GMP em 2 mL de soro fisiológico com 5% de albumina humana. As crianças ficaram em jejum pelo menos oito horas e foram sedadas por via intravenosa com tiopental sódico (3 a 5 mg/kg). Foi feita uma punção lombar com uma agulha espinhal de 24 G em L3/L4 ou L4/L5. Foram retirados três mililitros de líquido cefalorraquidiano (LCR). Um foi guardado para análise e dois foram reinjetados depois das células, para que nenhuma célula ficasse no espaço morto da agulha. As crianças ficaram em observação durante quatro horas e tiveram alta se estivessem estáveis, com um médico de prevenção nas 48 horas seguintes.

O critério de avaliação principal foram os acontecimentos adversos, classificados pela CTCAE v5. A CARS, a ATEC e o Behavior Problem Inventory foram registados no início e aos um, dois, quatro e seis meses, as citocinas do LCR antes de cada injeção, e o EEG e a imagiologia por tensor de difusão no início e aos seis meses. A saúde dos próprios pais também foi acompanhada, com o GHQ-28 e o SF-36. Com cinco participantes, os autores não usaram estatística inferencial e apresentam tudo como valores observados individuais.

Resultados:

Segurança: Não houve acontecimentos adversos graves. Cada uma das cinco crianças teve pelo menos um acontecimento adverso, e os acontecimentos seguiram um padrão:

  • Houve febre em 5 de 5, vómitos em 4 de 5 e náuseas em 3 de 5.
  • A febre foi de grau 1 em três crianças e de grau 2 em duas. Nenhuma teve sinais meníngeos como rigidez da nuca, fotofobia, alteração da consciência ou sinal de Brudzinski positivo. Todos os episódios se resolveram em 12 a 48 horas com paracetamol a 10 mg/kg.
  • Os acontecimentos adversos tornaram-se mais numerosos e mais intensos a cada nova injeção. A primeira injeção foi a mais bem tolerada.
  • Nada foi registado nas consultas dos quatro e seis meses, as culturas do LCR foram negativas e não surgiu nenhuma alteração laboratorial relevante.

O resumo do artigo indica as náuseas como o segundo acontecimento mais frequente, com 4 de 5. O texto completo refere vómitos em 4 de 5 e náuseas em 3 de 5. Este resumo segue o texto completo.

Comportamento: A pontuação total da CARS desceu nas cinco crianças, de uma mediana de 43 (intervalo de 30 a 45) para 31,5 (intervalo de 22 a 35), uma variação mediana de −26,7%. Duas crianças passaram para a faixa não autista e três passaram de grave para ligeiro a moderado. A maior parte da mudança surgiu no primeiro mês, depois do qual as pontuações estabilizaram de forma geral.

Dentro da CARS, os itens que mais mudaram foram o nível de atividade, a resposta emocional, a resposta visual e o uso de objetos e do corpo. Os que menos mudaram foram a comunicação não verbal, a adaptação à mudança, a resposta ao paladar, ao olfato e ao tato, a imitação e a impressão geral.

Os resultados da ATEC foram menos favoráveis. A variação mediana foi de −33,3%, mas as duas crianças que não falavam no início mostraram pouca ou nenhuma mudança no subdomínio da fala e da linguagem. Depois dos dois primeiros meses, as pontuações da ATEC mantiveram-se (três crianças) ou voltaram a subir (duas crianças). No Behavior Problem Inventory os resultados foram mistos. A autoagressão melhorou em três crianças e desapareceu por completo numa, mas agravou-se noutra. A agressividade aumentou em duas. O comportamento estereotipado aumentou em três das cinco e diminuiu em duas.

Inflamação: As citocinas pró-inflamatórias do LCR desceram de forma consistente ao longo de dois meses. A IL-6 desceu de uma mediana de 7,66 para 2,49 pg/mL e o TNF-α de 3,26 para 1,1 pg/mL. A contagem de leucócitos e a PCR no LCR também desceram. Os autores notam que não há um intervalo normal validado para as citocinas do LCR em crianças, porque não é eticamente possível fazer punções lombares a crianças saudáveis. Os valores são por isso variações dentro de cada criança e não podem ser comparados com uma norma.

EEG e imagiologia: O EEG foi tentado em quatro crianças e só dois registos foram utilizáveis. Os restantes perderam-se por artefactos e falta de colaboração. Nesses dois, a potência absoluta delta desceu 53,5% e a teta 20,6%, enquanto a alfa subiu 20,2% e a beta 65,0%. Os registos foram feitos sob sedação, que por si só desloca o EEG para frequências mais lentas, pelo que os autores consideram válida a comparação antes e depois, mas não a comparação com dados normativos. A imagiologia por tensor de difusão não mostrou remodelação estrutural significativa dos feixes corticoespinhais nem dos feixes do cíngulo.

Conclusões:

Três injeções intratecais repetidas de CEM-CU foram seguras e exequíveis em cinco crianças. Os autores afirmam que tudo o que vai além da segurança é exploratório e serve para gerar hipóteses, e não para as confirmar. As limitações que indicam são a ausência de grupo de controlo, o que impede separar os efeitos do tratamento do desenvolvimento normal, uma amostra demasiado pequena para detetar acontecimentos adversos pouco frequentes, um desenho aberto em que cuidadores e avaliadores sabiam o que tinha sido administrado, e a falta de seguimento a longo prazo.

Quanto às expectativas, escrevem que é fundamental manter uma perspetiva equilibrada e baseada na evidência, “garantindo que os cuidadores e as partes interessadas têm expectativas realistas e estão protegidos de alegações enganosas de cura completa”.

Informação de contexto:

Dois pontos da discussão são relevantes para este tratamento.

O primeiro diz respeito à febre. As CEM têm baixa imunogenicidade, mas, nas palavras dos autores, não gozam de um privilégio imunológico completo. Uma meta-análise separada dos acontecimentos adversos associados às CEM concluiu que a febre era o acontecimento mais frequente, sobretudo com células alogénicas, e que, quando as injeções eram dadas três vezes, um aumento da dose de dez vezes elevava significativamente a probabilidade de febre. Um estudo anterior verificou que um terço dos doentes desenvolveu novos anticorpos anti-HLA após CEM intravenosas. As consequências imunológicas de doses repetidas são uma das questões em aberto.

O segundo diz respeito a quem tem maior probabilidade de beneficiar. Os autores defendem que, como o mecanismo é imunomodulador, as CEM-CU têm maior probabilidade de ajudar o subgrupo de crianças em que a neuroinflamação é um fator principal, e menor probabilidade de ajudar as crianças cujo autismo resulta sobretudo de causas genéticas ou estruturais. Referem também o trabalho de Dawson e colegas, que mostrou que a melhoria após perfusão de sangue do cordão acompanhava o QI não verbal inicial, com ganhos relevantes nas crianças sem deficiência intelectual e não nas que a tinham. As crianças mais novas responderam melhor. Para ensaios futuros recomendam estratificar no início por critérios imunológicos, demográficos e cognitivos, para que os prováveis respondedores possam ser identificados com antecedência.

Observam ainda que, nas crianças em que a melhoria se desvaneceu, terapia comportamental ou ocupacional complementar após o tratamento celular poderia prolongá-la. Apresentam isto como uma hipótese a testar.

Este é o resumo de investigação independente publicada noutro local. Não é um relatório dos resultados dos tratamentos da Beike.

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